• crisnacaroline

Música, jornalismo e a questão racial nos EUA em “The Final Revival of Opal & Nev” (Resenha)

Atualizado: Mar 26

Em 2020 eu me tornei resenhista na NetGalley, um site no qual editoras disponibilizam cópias antecipadas de obras que ainda serão publicadas, para que leitores possam dar seu feedback e ajudar na divulgação. Graças ao site, eu li muitas obras incríveis que estão sendo lançadas lá fora.


Em breve vou falar um pouco mais sobre a plataforma, mas hoje trago a resenha de uma obra cuja cópia antecipada recebi por lá: “The Final Revival of Opal & Nev”, primeiro romance da jornalista americana Dawnie Walton.


Se você acompanha os lançamentos no exterior, deve saber que a obra tem entrado em diversas listas dos mais aguardados para 2021 e também recebido muitos elogios. Eu não sabia de nada disso quando solicitei o livro, mas a capa me chamou atenção e a sinopse me deixou empolgada.


Eu comecei a ler dia 1° de fevereiro e levei quase 4 semanas para terminar. Quem me segue lá no Instagram acompanhou meu drama, porque realmente parecia que era feitiço e ele tinha mais páginas do que o anunciado: eu lia, lia, lia, e o percentual mal andava! Porém fiz questão de frisar o quão bom ele é, porque eu não queria que ninguém entendesse meu drama da forma errada.


E agora que eu terminei eu posso afirmar de verdade: QUE LIVRO BOM!


Mas, afinal, qual é a de Opal & Nev?



A narrativa vai contar a história de Opal Jewel e Nev Charles, se esbarraram lá pela década de 70 e viraram um duo de rock. Depois, ambos seguiram suas carreiras solo, com Nev tornando-se um grande sucesso e Opal afastando-se da mídia após diversos fracassos, até que decidem se reunir e fazer um grande show relembrando os sucessos dos velhos tempos.


É nesse momento que S. Sunny Shelton, jornalista e editora-chefe de uma famosa revista sobre música, recebe o convite para escrever a história dos dois. Mas a sua própria história de vida está diretamente entrelaçada à deles, e não vai ser fácil desvendar os eventos que lançaram Opal & Nev ao estrelato, mas também causaram a morte precoce de seu pai, o baterista Jimmy Curtis.


A primeira coisa que me prendeu ao livro foi o quanto ele soa real. Dawnie Walton é jornalista e tem um relacionamento muito próximo com a música, e isso traz verdade à forma como ela escreveu Sunny. A construção do universo musical também foi maravilhosa e soa tão realista que eu me peguei pesquisando os nomes dos personagens várias vezes para ter certeza que era ficção.


O segundo ponto que eu queria frisar é a forma certeira como ela aborda a questão racial em diversas décadas e níveis, que vai de atos de racismo do dia a dia a violências extremas, como a que aconteceu a Jimmy. O ponto central da obra é esse evento, e ele tem início justamente porque Opal não aceita que outra banda da gravadora ande por aí usando a bandeira confederada¹ sem que ninguém faça nada a respeito. Em meio a tudo isso, Walton ainda solta diversas críticas também ao machismo, na música, no ambiente de trabalho, na vida.


A própria construção do passado dos personagens é maravilhosa, pois mostra o abismo entre as experiências de vida de Nev, homem branco britânico de classe média-alta, filho único mimado pelos pais e se achando um gênio incompreendido, e Opal, mulher negra norte-americana de família pobre, com uma atitude desafiadora de resistência e a quem tantas oportunidades foram negadas.


A história é contada através de narrativa oral e inputs da própria Sunny, os primeiros 40% são meio mornos, mas vão acendendo nossa curiosidade à medida que a narrativa passa a se tornar cada vez mais pessoal para ela. Minha ansiedade em acabar a leitura vinha 100% da vontade de descobrir onde tudo aquilo ia dar.


Por causa do estilo narrativo e do enredo centrado no mundo da música, o livro tem sido comparado a “Daisy Jones and the Six” de Taylor Jenkins Reid, que eu não li ainda, mas (por mais que eu goste muito da escrita da Taylor), pelo que sei da obra, não consigo imaginar que a história consiga ter a mesma profundidade que Dawnie Walton imprimiu em “The Final Revival of Opal & Nev”.


Já entrou para os favoritos, e eu só torço que ele venha para o Brasil! Quem lê em inglês, fica logo de olho nele, quem não, permanece atente para quando finalmente lançarem aqui. Eu com certeza vou avisar a todo mundo (e forçar a ler, claro!).

O livro será lançado dia 30 de março lá nos EUA, e sou muito grata à NetGalley e à 37ink (Simon & Schuster) por me disponibilizarem essa leitura antecipada.


¹A bandeira dos Estados Confederados da América é um símbolo usado por estados do Sul dos Estados Unidos como uma forma de demonstração de orgulho pelo seu passado, principalmente em relação à Guerra Civil Americana. Infelizmente, dado o uso que foi feito historicamente da mesma, sua utilização está diretamente ligada aos movimentos supremacistas brancos, racismo, segregação e escravidão. Para mais informações, recomendo uma busca pela Guerra Civil Americana, principalmente para entender não apenas o contexto da obra, mas também de movimentos como o “Black is Beautiful”, “Black Lives Matter” e os protestos recentes nos Estados Unidos.