• crisnacaroline

Altas doses de nostalgia em “Os Relógios” de Agatha Christie (Resenha)

Este é o primeiro texto sobre Agatha Christie que eu estou publicando aqui no blog, mas quem me acompanha no Instagram sabe o quanto eu sou apaixonada pela escrita da Rainha do Crime.


Nos últimos 3 anos eu tenho lido pelo menos uma obra dela quase todo mês, o que significa que eu também fiz muitas resenhas, e pretendo publicar todas aqui aos poucos, mas hoje eu vim falar sobre esse que é um dos últimos livros escritos por ela com o icônico Hercule Poirot.


Antes de qualquer coisa, creio ser importante dar algum contexto. Agatha publicou seu primeiro livro, “O Misterioso Caso de Styles”, em 1920, e nele já aparecia aquele que seria o seu personagem mais querido e famoso, o já mencionado Hercule Poirot, um ex-policial belga que trabalha como detetive particular.


Quando “Os Relógios” foi publicado em 1963 o excêntrico, metódico e nada modesto detetive já havia aparecido em dezenas de obras, entre romances e contos. Agatha em determinado momento cansou-se de escrever Poirot, mas os editores não lhe permitiram parar, pois o público simplesmente o amava. Porém, ela dava ao personagem cada vez menos espaço nas obras, muitas vezes surgindo apenas após a metade do livro, ou em momentos muito espaçados.


Neste mesmo período, Ariadne Oliver, a personagem escritora de Agatha, também passou a aparecer mais. Suas próprias falas, bem como as de outros personagens sobre ela, costumam ser reveladoras de alguns aspectos de sua criadora, como a seguinte, proferida por Poirot no capítulo 14 de “Os Relógios, na qual ele fala sobre os livros da escritora:


“Ela abusa do longo braço da coincidência. E, sendo jovem na época, ela cometeu o erro de criar um detetive finlandês, e fica claro que ela não sabe nada sobre finlandeses ou sobre a Finlândia [...].”

Poirot é belga, não finlandês, mas a relação é clara.


Agatha faleceu no início de 1976, doze anos após o lançamento de “Os Relógios”, e durante esse período de tempo só publicou mais três romances novos e originais com o personagem: “A Terceira Moça”, “Noite das Bruxas” e “Os Elefantes não Esquecem” (“Os Primeiros Casos de Poirot”, de 1974, é uma coletânea de contos publicados entre as décadas de 1920 e 1930, e “Cai o Pano”, de 1975, último livro com Poirot, foi escrito em 1940, já na intenção de que fosse o encerramento de sua história). Por tudo isso, não é de surpreender que a sensação de que Poirot em breve se despediria permeie toda a obra.


Os Relógios

Contexto dado, agora falemos sobre a obra em si.


Tudo começa quando Sheila Webb, uma datilógrafa, é solicitada a ir à casa da Sra. Lawton para um serviço. Orientada a entrar caso ninguém respondesse à porta, Sheila encontra um homem morto caído no chão da sala de estar, cheia de relógios. Após a chegada da Sra. Lawton, que é cega, Sheila sai correndo desesperada e esbarra em Colin Lamb, um rapaz que ia passando na rua e prontamente chama um conhecido seu da polícia, o Inspetor Hardcastle. Após os interrogatórios preliminares, porém, há uma grande surpresa: a dona da casa não sabe de onde vieram 4 dos 6 relógios presentes na sala, nem por que eles estavam parados marcando 4:13, muito menos quem é o morto.


A narração da obra é dividida em terceira e primeira pessoa, esta feita por Colin, um sujeito meio misterioso que estava passando pela região em busca da resposta à própria investigação, que envolve espionagem. O livro foi escrito na época da Guerra Fria, e, como sempre, Agatha encontrou uma maneira de incluir questões que envolviam a sociedade e o cenário político da época.


Aí você se questiona: cadê Poirot?


Essa é uma pergunta que muitos leitores se colocam enquanto leem obras mais tardias do personagem. Conforme dito, Agatha não queria mais incluir o detetive em suas obras, e acaba relegando a ele um papel um tanto secundário, mesmo que sempre acabe resolvendo os casos. Aqui ele entra na narrativa através do próprio Colin, um velho conhecido de Poirot, que leva a ele o mistério na intenção de lhe dar algo com o que se sentir menos entediado. Ele o desafia a fazer o que sempre disse ser capaz: deduzir a solução do caso sem sequer sair de sua poltrona, usando apenas as células cinzentas.


Vemos o detetive já meio idoso, lendo romances policiais para passar o tempo e há uma cena que é talvez uma das mais divertidas que Agatha já escreveu para ele, na qual disseca diversos casos de crimes reais e ficcionais e seus autores. Uma das razões para que o livro passe tanta sensação de nostalgia está nestas conversas de Poirot e Colin e nas recordações que elas trazem: Ariadne Oliver, Hastings, menções a casos antigos, até ao pai de Colin (cujo verdadeiro sobrenome não é Lamb, que ele usa para se disfarçar, mas os leitores mais atentos vão deduzir qual é). Poirot aceita o desafio, mas aparece em poucas ocasiões. É Colin quem acompanha o caso e recolhe as pistas (enquanto investiga o seu próprio) e as leva ao detetive.


No geral, é um livro divertido e interessante com um desfecho satisfatório, mesmo que alguns detalhes do mistério sejam de fácil dedução, e que o final tenha um detalhe que funciona basicamente como um deus ex-machina, ou seja, surge do nada e responde tudo. Talvez o mais interessante seja o fato de termos a subtrama de espionagem acontecendo, mas o que vai ganhar os leitores mais antigos são, sem dúvida, as referências, que fazem sentir que a despedida do nosso querido detetive bigodudo está próxima.


O #lendoPoirot é nosso clube de leituras no qual acompanhamos as histórias do detetive das células cinzentas. Está chegando ao fim, e agora temos só mais 5 títulos diante de nós. Talvez por isso a nostalgia tenha batido tão forte.