• crisnacaroline

"O Dia em que a Poesia Derrotou um Ditador" narra (mais ou menos) o fim da ditatura chilena -Resenha

Atualizado: Mar 26


Por dois anos, eu fui assinante da Tag Livros na modalidade Curadoria, e uma das coisas que mais gostei da experiência foi ter conhecido obras que me tiraram da famosa zona de conforto.


O livro enviado em novembro de 2020 foi “O Dia em que a Poesia Derrotou um Ditador”, do autor chileno Atonio Skármeta, que transforma o fim da ditadura no Chile em uma ficção divertida. Não entendam mal, o livro não deixa de abordar a seriedade do tema e do momento, mas narra os acontecimentos com um tom bem-humorado que dá leveza à leitura.


Ele conta a história de Adrián Bettini, um publicitário e pai de família contrário ao regime de Pinochet, mas que acaba, graças à sua competência profissional, sendo convidado a defender a campanha pela permanência do general no poder no plebiscito que definiria o destino do Chile. Após negar o apoio, ele se vê contratado para defender o outro lado, o “Não” a Pinochet, uma tarefa nada fácil, que precisa ser alcançada em pouquíssimo tempo. Além de Bettini, acompanhamos também sua família, em especial sua filha e o namorado dela, Nico, cujo pai foi levado pela polícia e está desaparecido. Todos os personagens acabam envolvidos na missão do publicitário, tentando lhe trazer ideias e inspirações, em uma narrativa às vezes tão absurda que arranca umas boas gargalhadas.


Mas isso tudo realmente aconteceu?


Sim e Não. A parte interessante é que a história é (mais ou menos) real. O plebiscito de 5 de outubro de 1988 realmente aconteceu, e nele, Pinochet foi mesmo deposto pela população após sua tentativa frustrada de fingir democracia que acabou dando certo, só não para ele. Os desafios do personagem também são reais, pois a frente que defendia a saída de Pinochet era formada por partidos de todo o espectro político, que não conseguiam entrar em consenso sobre que atitude adotar. A campanha original tomou (mesmo) a decisão de utilizar um tom positivo, até celebridades internacionais chegaram a participar dela, e a música utilizada, assim como no livro, também era bastante grudenta. Entretanto continua sendo uma obra de ficção, com personagens também fictícios, mas que dá uma ideia geral das circunstâncias.


Em alguns aspectos, a obra me lembra um pouco “Afirma Pereira”, do autor italiano Antonio Tabucchi, também enviado pela Tag Curadoria em 2020, e que trata da ditadura Salazarista em Portugal de uma forma também bastante leve, sem diminuir a gravidade da temática.


É um episódio da História da América Latina que eu não conhecia a fundo, e ao qual fui (mais uma vez) apresentada por uma obra literária, que atiçou minha curiosidade e me levou a procurar entendê-lo melhor. Recomendo uma pesquisa maior sobre a ditadura chilena e também a leitura da obra, e as edições da Tag Livros têm sempre a vantagem de já acompanhar uma revistinha com conteúdo extra.