• crisnacaroline

"Fahrenheit 451": um clássico das distopias que talvez não tenha envelhecido tão bem (resenha)

Atualizado: Mar 26


Uma mulher segura o livro Fahrenheit 451 de Ray Bradbury e um fósforo aceso diante de uma estante de livros.
"Fahrenheit 451": um clássico das distopias

Dificilmente alguém nunca ouviu falar em Fahrenheit 451, uma distopia escrita por Ray Bradbury e publicada em 1953. Antes de se tornar um romance, o enredo já havia sido trabalhado pelo autor em alguns contos, que ele acabou retrabalhando na obra. Conhecida no mundo inteiro, ela rendeu diversas adaptações, inclusive 2 cinematográficas, uma de 1966, dirigida por François Truffaut, e outra de 2018, com Michael B. Jordan no papel principal.


A obra trata daquela que é, talvez, uma das formas mais terríveis de limitar o acesso ao conhecimento: a queima de livros. A sociedade descrita por Bradbury vive para consumir produtos audiovisuais de massa que a mantêm alienada, e a posse de qualquer tipo de obra literária é proibida. O personagem principal, Guy Montag, é um bombeiro, o que na obra significa uma pessoa designada para queimar livros. Tudo muda quando ele conhece sua nova vizinha, Clarisse, uma adolescente questionadora que o leva a repensar esse sistema.


Os dois temas no livro que mais sobressaem são a censura e a alienação, os quais Bradbury temia que estivessem ganhando força na época.


Entretanto, há alguns aspectos que me incomodaram. Um deles foi apontado por uma colega em nosso debate: a tecnofobia. É verdade que na obra há falas que se referem ao (óbvio) fato de que livros não são necessariamente a única fonte de cultura, mas ao pesquisar mais a respeito descobri que Bradbury era realmente avesso a inovações tecnológicas. A maioria das obras de ficção científica que recaem no uso de tecnologias futuristas correm o risco de acabar ficando datadas, porém o autor acertou bastante. Hoje utilizamos alguns aparelhos que são muito semelhantes aos descritos pelo autor. A diferença mesmo aparece na atitude escolhida por ele de dar apenas contornos negativos a essa evolução tecnológica.


Acaba sendo um tanto irônico ler sobre como as mídias de massa e tecnologias vão acabar com os livros, quando sabemos que muito provavelmente elas os salvaram da extinção, já que temos praticamente qualquer obra digitalizada e acessível a um toque de nossos dedos em uma tela, o que tornaria a (ainda que terrível e chocante) queima de livros um ato de censura (quase) inútil! Ainda fica claro que, para ele, a tecnologia iria afastar as pessoas, e, infelizmente, ela tem mesmo esse potencial, porém vemos hoje o quanto ela é também capaz de nos tornar mais próximos, mesmo estando distantes. A pandemia do Covid-19 é a prova disso.


Outro problema é que, de acordo com o autor, as minorias vão iniciar esse processo de expurgo dos livros à medida que forem cortando partes dos mesmos. Em um dos textos presentes no final da obra (a "Coda", que está disponível nessa edição da Biblioteca Azul), ele faz algumas afirmações no mínimo controversas a respeito. É compreensível que ele estivesse irritado com censuras feitas a trechos de Fahrenheit (em edições voltadas a públicos mais jovens) e outros livros, porém sua forma de lidar com as críticas em relação a questões controversas em suas obras é afirmar que se as minorias estão incomodadas, elas que escrevam os livros da forma que bem entenderem. Embora eu concorde que não devemos (nas palavras do próprio) “mutilar” obras que já foram escritas, me parece que esse tipo de afirmação demonstra descaso com questionamentos legítimos das tais minorias e uma recusa em mudar de atitude dali em diante.


Apesar de ser uma obra importante e achar que ela deve ser lida, o encadeamento dos acontecimentos não funcionou tão bem para mim, em alguns momentos eu sentia que a história não andava muito, até que tudo acontece muito rápido no final.


Sobre os personagens, o próprio Montag é desinteressante, as mulheres são descritas por um viés bastante machista (mas era 1953, então dei um monte de descontos), Clarisse é subestimada e subutilizada como plot device (quando existe apenas para causar alguma ação na obra) e os sentimentos dele por ela me causaram incômodo. O único que realmente suscitou algum aspecto interessante para mim foi o Capitão de Montag, Beatty. Será possível escolher ser alienado? Se você tem consciência, deixa de ser alienação? Não sei, mas o fato é que não há melhor definição para Beatty. Ele sabe todas as coisas que estão sendo deixadas para trás, mas ele acredita que é o correto a se fazer, ainda assim isso o afeta. Essa dualidade no caráter dele é um enigma que confunde o leitor.


No geral, não considero um livro ruim, e entendo a importância para a época que foi escrito e a relevância de sua crítica à censura, mas confesso que esperava mais e não achei que ele envelheceu bem. Ainda assim, é uma leitura bem rápida, então compensa, e é possível que você goste bem mais do que eu. Muitas pessoas amam.