• crisnacaroline

Um encontro de contos: “A última pergunta” e “Aqueles que abandonam Omelas” (Resenha)

Atualizado: Ago 20


Eu não escondo de ninguém o quanto eu me apaixonei pelos contos. Se antes eu evitava esse estilo narrativo, hoje me pego buscando contos com os quais preencher os intervalos entre outras leituras.


Seja sozinho ou em uma antologia, sempre que quero uma leitura rápida e ágil, mas que me prenda e surpreenda, busco um conto. Foi, inclusive, através dos contos que eu descobri que conseguia ler terror, um gênero que costumo evitar por geralmente ter uma carga de violência muito pesada.


Mas isso é assunto para outro dia. Hoje eu quero inaugurar um novo estilo de publicação, Um Encontro de Contos, no qual trarei resenhas de 2 contos ou mais. O título foi inspirado por “Um Encontro de Sombras”, segundo livro da trilogia “Tons de Magia” da V. E. Schwab (que eu amo), porque a sonoridade me pareceu boa. (hahahaha)


Para o primeiro post, escolhi dois contos de mestres da ficção científica: “A última pergunta” de Isaac Asimov e “Aqueles que abandonam Omelas” de Ursula K. Le Guin.


A última pergunta


Publicado pela primeira vez em 1956, este é um conto que o próprio Asimov dizia ser um de seus favoritos, e não sem motivo.


Conhecemos o computador Multivac. Autoajustável e autocorrigível, ele funciona de forma autônoma, processando os dados que lhe são imputados e devolvendo soluções aos seres humanos. Sua última descoberta foi como armazenar, converter e utilizar a energia solar em escala mundial, possibilitando o abandono do uso de outras energias não renováveis. Porém, um dia a energia do sol vai acabar.


E é aí que surge a tal última pergunta, que aparece de diversas maneiras e em várias épocas ao longo da narrativa, sempre querendo saber “Como reverter a entropia?”. Como boa pessoa de humanas, eu sou incapaz de explicar a definição de entropia de forma científica, mas aqui o que importa é saber que a tendência é que a energia seja consumida e, um dia, mesmo que leve trilhões de anos, ela vai acabar.


[Se você, como eu, tem uma mente curiosa e gosta de buscar mais informações, recomendo os artigos do Brasil Escola e do Toda Matéria. Está tudo desenhado (literalmente).]


Os pontos mais incríveis da história são a forma como o autor mostrou a evolução da sociedade, o futuro que ele imaginou para a humanidade e o grande de desfecho, que é de explodir a cabeça e mescla ciência e religião. É engraçado como, apesar de tudo na obra ser muito futurista, alguns detalhes que aparecem ao logo da narrativa são coisas que já fazemos hoje.


É o tipo de conto para ser revisitado sempre.


Aqueles que abandonam Omelas


Este é um dos contos disponíveis no Projeto Cápsula da Editora Morro Branco, disponibilizados gratuitamente para leitura no site. Publicado em uma coletânea em 1974, foi indicado ao Locus e ganhou o Hugo de melhor conto naquele mesmo ano.


A narrativa de Le Guin usa a ficção científica para abordar temas políticos e sociais. Somos apresentades à cidade de Omelas no dia que a população celebra o Festival de Verão. As descrições da autora claramente visam passar uma sensação de perfeição, chegando, em diversos momentos, a deixar que nossa imaginação decida diversos detalhes sobre o lugar, nos permitindo criar uma espécie de paraíso pessoal.


Ela também encontra espaço para criticar diversos aspectos negativos da nossa própria sociedade, afirmando que estes não existiam em Omelas. E é quando toda essa utopia está desenhada na mente des leitores que vem o golpe: e se toda esta perfeição dependesse do sofrimento de um único ser inocente?


O conto nos faz questionar quantas vezes sabemos que nossos privilégios são baseados em sistema que oprime outras pessoas. Vemos e fingimos que “é assim mesmo”, ou damos as costas, “abandonamos Omelas”, para não termos que presenciar e fazer parte dos acontecimentos, mas não fazemos nada a respeito para que a situação mude.


Foi minha primeira leitura favoritada de 2021, e sem dúvida recomendo como uma ótima fonte de reflexão.


O que acharam do formato do post?